Saturday, August 26, 2006

sentimento de dever do alemão

Percebi o quanto os alemães têm um senso de dever diferente do nosso. E me surpreendi por compartilhar de um certo espírito típico brasileiro que nos faz tão suscetíveis ao “jeitinho” malandro e à picaretagem. Coisa que eu desprezo, e quando encontro de alguém procuro sempre evitar. É bom ter essas experiências para que possamos terapeuticamente reavaliar até que ponto devemos continuar ou negar as tradições de onde viemos.
Estava num Biergarten com dois amigos italianos, e um deles pediu algo para comer. O alemão que atendia na barraca apontou para as salsichas assadas e disse que o prato que ele houvera pedido não estaria tão bom, porque já havia assado as salsichas há alguns minutos. Seria melhor ele pedir outro, que ele acabava de preparar...
Bem, tudo certo, um alemão simpático, que sugerira uma opção melhor para o cliente. Porém, as salsichas não pareciam tão mal. E o que mais era estranho era a diferença de preço entre os pratos. Enquanto o que o italiano houvera pedido antes custava 6,50€, o outro custava apenas 1,50€.
Como já havia tomado umas mais de três cervejas, daquelas de 500ml, arrisquei tirar uma brincadeirinha com o alemão, no meu alemão rabujento.
Disse a ele que era tão simpático que virara um mal vendedor... mas tudo num tom de elogio e brincadeira.
Mas ele fechou a cara, deu-me um fora, e perguntou se eu queria alguma coisa, pois ele estava fechando o bar e não podia conversar.
Depois, pensei direitinho. Realmente tinha feito uma ofensa ao sentimento de dever do doideira. Disse a ele, no fundo, que ele deveria ter sido desonesto para faturar em cima do turista... Claro que foi em tom de brincadeira, mas a reação deixou bem claro pra mim o tamanho do sentimento de dever desses caras. É algo impressionante.
Depois disso, acho que é completamente possível não contar o troco dado em moedas por um caixa de supermercado. Esses alemães são confiáveis; acho que desde pequeno são obrigados a introjectar esse sentimento forte de dever que nós temos de modo... hehe... diferente.
Claro que tem corrupção aqui, mas 1º a economia eleitoral tem uma lógica própria mesmo no mundo todo, e 2º quando se trata de muita grana e muito poder, o sentimento pode se tornar relativo. Mas acho difícil que alguém seja corrupto no dia a dia... Isso, claro, ajuda, também, a reduzir a corrupção na política e em todas as esferas da vida pública.
Lembrei então de uma suposta declaração de Lenin. Ele dizia que se houvesse uma revolução na alemanha, seria formada uma fila e seria cobrada entrada para organizar a história toda.

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