Saturday, August 30, 2008

In the Bizarro World




Às vezes gosto de ver um pouco de televisão do Brasil, pela Internet. Pra saber como estão as coisas. Aliás, é incrível como, muitas vezes, tenho notícias do país antes mesmo de pessoas que moram por lá. Fico pensando como era isso há 15, 20 anos, quando as notícias chegavam pelo correio ou, quando muito, sabia-se das coisas por meio dos jornais locais de outros países que, se já hoje, aqui na Europa, dão pouco destaque para o que acontece na América Latina, deveriam achar, nessa época, que a capital do Brasil era Buenos Aires e que por lá as pessoas ainda se locomoviam a cavalo. Imagino também como era o contato com os familiares... e o impacto de uma notícia bombástica cujas repercussões era impossível acompanhar em tempo real. Se há esse lado ruim, já que se ficava com um contato realmente restrito com o país de origem, havia, por outro lado, a vantagem de que, certamente, as pessoas que vinham morar no exterior eram obrigadas a se inteirar mais rapidamente dos acontecimentos locais. Algo que deveria ajudar inclusive no aprendizado da língua.

Bem... Escrevo, na verdade, não sobre esse blá, blá, blá, de estar fora e estar dentro. Escrevo esse post, enfim, porque, embora as distâncias tenham diminuído bastante, em 10 meses de estada alemã já há coisas com que se nos acostumamos e que nos fazem olhar para Brasil de um modo diferente. Uma delas é a idéia simples e um tanto evidente (algo que os alemães poderiam chamar "selbstverständlich") de que regras de trânsito são feitas para serem cumpridas.

Vá, lá... Tampouco as coisas são assim tão estritas que cheguem a ser ridículas (apesar de chegarem a ser em alguns casos). Como sabemos, aplicar uma regra de modo cego tampouco é sinal de inteligência e maturidade moral-prática. Há de haver uma sensibilidade contextual que permita sempre que as regras sejam adequadas a contextos e situações, inclusive com a ponderação de sua finalidade e das possíveis repercussões de sua aplicação.

Às três horas da manhã, em uma cidade como Flensburg (minúscula), as pessoas não esperam 3 minutos em uma rua secundária ou local para atravessar a rua no sinal verde para pedestres. Ainda assim, diria que, na maioria das vezes, em cidades um pouco maiores, um ciclista iria esperar. E que, mesmo em Flensburg, nas ruas mais perto do centro, não é incomum ver um pedestre, na madrugada, esperar o sinal tornar-se verde para si, para que ele possa atravessar. Eu mesmo o faço, geralmente (hehe).

Carros, então... Acho que é debalde comentar. Afinal, é realmente "selbstverständlich" que regras foram feitas para ser cumpridas. E aqueles que estão num automóvel as cumprem sem que isso seja um tema de reflexão.
Pois bem. Hoje cruzei, por acaso, com uma reportagem, da Band News, sobre um fenômeno interessante. Ao ver a matéria me senti, juro, lendo um daqueles quadrinhos do Super-Man in the Bizarro world. Um mundo em que tudo é absurdo e o super-man é do mal, lutando contra o bem (no caso, o verdadeiro super-man).
A reportagem relatava que pessoas estão comprando aparelhos de GPS (aqueles aparelhinhos para facilitar a navegação urbana) para poder fugir da fiscalização de câmeras colocadas em sinais de trânsito e radares medidores de velocidade.
Até aí tudo bem. É óbvio que gente esperta, malandra e que gosta de flertar com a ilegalidade há em qualquer lugar do mundo. É óbvio que existe falcatrua também na Alemanha ou em qualquer outro sítio. O que me assustou não foi isso.
O que me estarreceu foram as pessoas que, na maior cara dura, justificavam a falcatrua com aquela velha revolta contra o governo. Alguns diziam: "A cada dia que passa aumenta a quantidade de radares. É cada vez mais complicado dirigir. está virando uma indústria da multa." Nåo deixa de ser curioso. Indústria da multa. Poderíamos, então, por que não, falar em uma indústria do direito penal, que prende e julga maloqueiros e traficantes? Mas o mundo bizarro vai além. Outro, que não conhecia a idéia, mas a achou brilhante, disse: "É, às vezes não tem como a gente identificar o radar. Isso ajudaria bastante". Por fim, uma senhorita com cara de alegre, não titubeou. E nos deu simplesmente a síntese conceitual da bizarrice: "Eu acho que esse não é o caminho não. Acho que o governo é que tinha que fazer uma fiscalização mais tranqüila".
No final, como o conceito, justo como nos ensina Hegel, ainda precisa de uma definição, apareceu na tela ainda um cientista do trânsito do mundo bizarro, dizendo que isso era bom, porque mostrava aos motoristas que, ao menos em alguns lugares, dever-se-iam cumprir as leis de trânsito. De modo que o GPS que avisa dos radares estaria conscientizando a população de que existem, afinal, leis de trânsito.
Meu deus... Me senti, juro, dentro de um mundo totalmente absurdo.
Para ver a reportagem clique aqui.

Tuesday, August 05, 2008

Quanto valem 10 brasileiros?

Há algumas semanas atrás, cheguei no instituto onde trabalho (ou estudo, se estudar nao puder ser considerado trabalho) e comentei com Alex (alexander) sobre a notícia da prisao de um figurao rico brasileiro.
Alex é um alemao típico. Faz doutorado em economia. É sério, calado e discipinado. Vem do sul, de Baden-Würtenberg. Talvez tenha se tornado o único amigo alemao, no sentido alemao da palavra, que fiz até agora por aqui.
Pela manha, costumamos tomar um café, se estiver frio, antes de comecar a trabalhar. A certa altura, numa manhã chuvosa, enquanto tomávamos café, ele perguntou, como faz vez por outra:
- Und am sonsten?...
Algo que significa mais ou menos como nosso: - E aí? que é que tu contas de novo?
Eu disse, com certa empolgacao, que antes de sair de casa havia lido uma notícia bastante instigante nos jornais brasileiros. Havia sido preso um dos homens mais ricos do Brasil, e um dos maiores corruptos conhecidos, envolvido na compra de políticos, juízes, jornalistas e jornais. Emendei com o juízo otimista de que isso era muito bom. Para mim parecia um sinal de que a indignacao com esse tipo de gente estava ganhando contornos institucionais no Brasil.
Alex olhou para mim com cara de quem queria terminar seu café, cara de quem nao queria se esforcar muito para entender o porquê do meu aparente êxtase. Realmente, ele nao deu muita bola pra história. Achou meio natural a história toda. Deve ter achado curioso como eu poderia estar tao excitado com algo que lhe parecia absolutamente banal, para nao dizer, aliás, aborrecido. Demonstrou uma certa fleuma que os alemaes dispensam a todo e qualquer tema que nao seja de seu interesse direto, individual até. Um ceticismo que eles têm em relacao a temas políticos que é, mesmo entre intelectuais, como meu orientador, bastante visível. Apesar de nao querer significar uma indiferenca normativa. Apenas um costume com os absurdos da política.
Pois bem. Hoje de manha nao estava quente. Mas, ainda assim, nos encontramos na copa. Fui tomar uma água com gás (um costume que nao tinha no brasil, mas que adquiri aqui, talvez "provincianismo imitatório" hehe) e ele estava por lá, preparando o café cuado salgado que os alemaes tomam. E dessa vez foi Alex quem me perguntou interessado: - Você viu o que aconteceu no Brasil?
Eu disse:
-Nao, o que foi? - realmente nao havia lido os jornais de hoje. Ou melhor, havia dado uma olhada ontem há noite, e nada tinha me chamado especialmente a atencao.
Mas Alex havia lido no TAZ (Tageszeitung) que 10 pessoas morreram, ontem, em uma operacao da polícia no Rio de Janeiro. Fui obrigado a dizê-lo a verdade:
-Ah, realmente li a manchete ontem. Um absurdo. Mas nao é uma coisa tao incomum assim.
Ele retrucou:
-Mas isso é muito mais sério que a prisao do banqueiro, que você comentou outro dia.
Ao que respondi:
- Nao no Brasil. No Brasil, uma notícia como essa é bastante normal.
Alex fez novamente cara de quem nao gostaria de entender o que lhe fora dito. Os brasileiros devem lhe parecer muito complicados. Ou mesmo absurdos. Mudou de assuntou: perguntou entao se eu sabia se hoje por acaso era lua cheia. Alex tem a teoria de que dorme mal quando a lua está cheia. Por isso fazia o café. E a lua, na verdade, nem está cheia.

Monday, October 15, 2007

A lei, a ordem e o capitão

Não é tão surpreendente que, no Brasil, um filme como “Tropa de Elite” suscite o tipo de discussões que suscitou. Certamente seria estranho que isso ocorresse por ocasião do lançamento de um arrasa-quarteirões holywoodiano comum. No contexto brasileiro, entretanto, o filme tem os ingredientes suficientes para despertar polêmica e trazer discussões que não se limitam a um juízo de gosto sobre a obra. Razões nada alvissareiras, é verdade, mas algo que talvez possa ser explicado a partir das posições que se formaram entre os simpáticos e os críticos ao filme.
Por certo, o filme é extremamente bem realizado. Talvez, apenas por isso, já merecesse atenção especial. Aplica certa fórmula realista de enquadramento e fotografia que tem se tornado a nova onda do bom cinema de ação norte-americano. Não se rendendo, por outro lado, ao irrealismo de um enredo recheado por astúcias de personagens dotados de poderes quase sobre-humanos, tal qual o Ethan Hunt de Missão Impossível, o bom e velho James Bond ou, em menor medida, o novo James Bourne. Trata, portanto, de um universo de simbólico com significantes bem reais, bem próximos ao nosso cotidiano.
Com efeito, o Capitão Nascimento e seu grupo de policiais são, por outro lado, claramente tratados como heróis, justo como o são os seus correspondentes norte americanos. Nas cenas em que, subindo morro adentro, são encarregados do resgate dos dois jovens e honestos policiais, ou mesmo quando sobem apenas para vingar a morte de um dos protagonistas, ninguém pode evitar uma certa cumplicidade e íntima identidade com o BOPE. Com música de fundo envolvente e traficantes sempre fotografados a partir do ponto de vista da polícia, o filme deixa bem claro o seu lado, desde o início. A trama se desenrola totalmente na perspectiva do narrador e, se alguma crítica resta a ser feita à conduta deste, ela cabe exclusivamente àquele que assiste.
Até aí, nenhum problema. Insisto, porém, em que a origem da polêmica não estaria nessa ode à lei e à ordem, como uma tomada de posição a favor da polícia, algo inusitado, até então, na história do cinema brasileiro. Ao contrário do que já se disse, não é uma tendência “patológica” exclusiva do nosso cinema a identificação com o criminoso. Aliás, quem não torce para os bandidos em “Os Bons Companheiros” de Scorcese, ou mesmo, em alguma medida, para o Tony Montana de Brian de Palma? Assim como ler as idiossincrasias de Otelo, identificando-se com elas, não torna ninguém um assassino passional em potencial, ver um filme como “Doze Homens e um Segredo”, torcendo para Daniel Ocean e sua gangue, não faz de ninguém um assaltante em potencial. Essas fantasias talvez sirvam também mesmo para exorcizarmos certas formas de expressão absurdas que a realidade e a convivência em sociedade nos veda, mas que não deixam de habitar nossa intimidade e natureza. O problema surge quando a obra de arte entra em curto-circuito com a realidade, tendo um papel não só catártico, mas também de interpretação do seu entorno, com repercussões diretas para posições com relevância prática potencial.
Nesse ponto, a polêmica em torno do “fator lei e ordem” em Tropa de Elite ganha contornos realmente dramáticos. Isso porque, do modo esteticamente “asséptico” como realizado, deixando-se, ao mesmo tempo, exclusivamente ao público o juízo “óbvio”, na opinião do próprio José Padilha, de que as práticas do Capitão Nascimento são absurdas, pode-se chegar a um resultado moralmente bastante arriscado. Esse resultado, a meu ver, corresponde a uma interpretação pervertida, parcial e, essa sim, patológica do que venha a ser, no Brasil, a defesa da “lei e ordem”.
É evidente que o Estado de Direito é baseado na lei e, logo, no respeito à ordem que a pressupõe. Essa idéia se torna óbvia, porém, apenas quando se supõe que a legislação é resultado de uma aceitação, ao menos tácita e indiretamente manifestada, dos seus próprios destinatários. Nisso consiste, enfim, a própria democracia. No Brasil, porém, esse sentimento de respeito à ordem democraticamente produzida não tem uma forma tão trivial. Primeiramente, ao que parece, muitos dos simpáticos ao suposto conteúdo “pró-polícia” do filme parecem ignorar que, ali, vê-se algo bem distinto de uma defesa do Estado de Direito. Longe de ser uma apologia à lei, as práticas do BOPE e a visão de uma “guerra” como a relatada pelo Capitão Nascimento correspondem a condutas tão criminosas quanto às dos próprios traficantes.
É verdade, por outro lado, que não se pode ignorar que o Brasil vive uma condição particular. Os índices de violência são crescentes e alarmantes, sendo necessário atacar urgentemente seus males de todas as formas. Nesse ponto, são, então, introduzidos argumentos a favor da necessária excepcionalidade das ações policiais e pintando-se o Capitão como um homem de caráter firme e inatacável.
A violência estatal pode ser, é verdade, moralmente justificável. Ela faz parte da democracia e serve, em última análise, para garanti-la. O problema parece ser, no entanto, o caráter seletivo que a noção de ordem ganha nas condições brasileiras, algo que parece ter uma dimensão fundamental na ação do filme.
Não vemos, na tela, o Capitão Nascimento “esculachando” nenhum dos coronéis corruptos da polícia militar ou entrando na casa de usuários de drogas para “esculachar” os “playboys” que, segundo ele mesmo, são os maiores responsáveis por tudo aquilo. Não é por acaso, aliás, que, ressalvada a faculdade onde estuda um dos protagonistas, e onde se passam os únicos conflitos entre o “asfalto” e “favela”, o filme não tenha qualquer locação de classe média. A ordem pública assim como entendida e defendida pelo Capitão não funciona nesses ambientes. Ela atinge apenas um tipo especial de brasileiros.
Esses brasileiros são os mesmos que, devido à falta de acesso a renda e educação, têm um status apenas parcial de cidadãos. Assim, se democracia se define não só pelo direito, mas também pela capacidade de participar, com o mínimo de condições, do processo político de produção das leis das quais se vai ser destinatário, para as vítimas da ordem do Capitão, não há democracia nem mesmo em seu sentido mais rasteiro. O problema é que, para esses sub-cidadãos, sejam eles traficantes ou não, vale uma ordem de exceção que não tem sua legitimidade garantida, nem mesmo, pelo conceito trivial de ordem democrática. Assim, se já é arbitrário que alguém se submeta a leis às quais eles não puderam dar nenhum tipo de anuência, o que dizer da submissão a uma lei que está acima da lei?
A verdade é que a tropa do Capitão Nascimento faz nada mais que impor uma nova lei e uma nova ordem, distintas das que valem para o restante dos indivíduos e produzidas especialmente para seus destinatários traficantes (quando as suas vítimas o são realmente). Dessa ordem fazem parte a tortura, o assassinato, a perseguição, o rito sumário, o tribunal de exceção, a pena de morte etc.
Podíamos, certamente, pensar que esse argumento é por demais ideologizado, poder-se-ia dizer até mesmo que a ordem moral imposta pelo capitão nascimento deveria ser aplicada em todos os níveis. Pois faria bem ao Brasil. Dessa forma, não seria tão mal imaginarmos o Capitão invadindo o congresso para “esculachar” alguns dos nossos parlamentares.
O problema, porém, apenas surgiria de outra forma. Se é necessária uma ordem de exceção para fazer valer a lei no Brasil, deveria caber a alguém que não os próprios destinatários das leis a sua imposição e interpretação. E, mesmo que o filme seja um desinterassado entretenimento, ele sugere a tal ponto e de modo tão direto e claro as virtudes morais do Sr. Nascimento, que deveria caber a ele, ou a gente como ele, a imposição da nova ordem.

Friday, December 22, 2006

A merda da minha dissertação

A tarefa de escrever um trabalho acadêmico é algo sempre penoso. Estou no meio dessa tarefa, com todos os dramas que ela oferece.
Algumas “fórmulas” de trabalho podem auxiliar.
Uma delas é escrever à medida que seu raciocínio se desenvolve, ou seja, de acordo com as leituras, e à medida que surgem as reflexões. Essa opção, apesar de ser a da maioria, a mim não me parece muito boa. O texto tende a parecer uma colcha de retalhos, com diversos modos de escrever sobrepostos, influência daquilo que líamos enquanto escrevíamos. Além disso, mudamos de idéia na medida em que lemos coisas diferentes. Aquelas reflexões que já estavam lá têm de ser refeitas, ou parecerão algo sem sentido quando confrontado com o conjunto.
A outra alternativa, que me agrada mais, é lermos tudo que pensamos ser principal, com adaptações, claro, à medida que nos aprofundamos em certos temas. Traça-se um plano inicial de leituras, com obras básicas, a depender do tempo que se tenha, e depois se realiza alguma leitura complementar àquelas. Pode acontecer que, ao lermos um autor, tenhamos que alterar o plano inicial, o que deve ser feito sempre com atenção ao tempo... Depois disso, começa-se a escrever, estando tudo já de alguma forma elaborado na cabeça. Essa é, sem dúvida, uma opção melhor que a primeira, mas ela não deixa de ter problemas. Primeiro, por conta do tempo que leva; segundo, porque nunca sabemos ao certo o que é realmente “tudo”. Lemos o que achávamos ser esse “tudo”, mas, depois de algum amadurecimento, vemos que deveríamos aprofundar certos pontos e abandonar outros. Além disso, ninguém é tão disciplinado assim, a não ser alguns nerds absolutamente criados para isso. Acho que só os alemães são capazes, na verdade.
Há outra alternativa, que me pareceu mais viável e que, mesmo que não completamente de maneira voluntária, adotei: ler quase tudo o que é importante, articular os pontos centrais do que vai ser escrito e começar. Ao longo do tempo vai-se complementando a leitura, com certas coisas que faltaram e, sobretudo, com alguma bibliografia secundária, doxografia relevante.
Meu maior medo ainda é o tempo, mas bem, como ele acaba mesmo sempre antes do que queríamos, terei, fatalmente, de adaptar a qualidade do resultado final às suas limitações... O pior é que, cada vez que releio o que escrevo me acho mais incompetente. Não vou desistir, mas certamente que a vida seria mais tranqüila se eu tivesse alguma aptidão mais natural... Sempre quis ser velejador profissional. Devia ter tentado... a propósito, será que ainda há tempo?

Thursday, November 23, 2006

revival

Como não escrevo nada,
vou publicar um texto meu já passado, de outro blog. pelo menos coloco algo no ar.



"A Beleza me atinge de maneira mais pungente que qualquer outra coisa. Não é racionalmente que ela me chega, assepticamente. Aterrorizado sinto sempre me faltarem as categorias. Não posso explicar o que se passa. Mais. normalmente, calado, represento-me toda a simplicidade da percepção imediata e absoluta do indescritível.

É uma intuição indivisível, normalmente, total. Não é possível retirar nada de sua imediatez. Ela vem como um choque pasmado que tem a percepção. Consome todos os recursos sensíveis disponíveis. Não há para ela altura, massa, qualidade... Definitivamente não se podem saber de causas ou efeitos. Se quiseramos compreendê-la, restar-nos-ia, certamente, apenas a Teologia.

Ela é definitivamente mito. E a forma que temos de reverenciá-la, é somente a contemplação paralisada.

Mas como a todo mito, à aproximação ritual se sucede um afastamento. A beleza significará sempre apenas a sua Divindade, e não podemos nos aproximar dela sem nos arriscarmos mais do que nos permite o bom senso. Qualquer outra ação seria de extremo perigo. Quais os meios de intervenção segura na seara poderosa da Magia?

Resta apenas uma transformação silenciosa. A divinização da paralisia. A frustração se acomoda. A inquietação se esvai na passagem sutil que se empreende entre a intuição destrutiva daquela completude penetrante à sua condição tranqüila de mito. Que reverenciamos, mas em que não penetramos. A qual não ousamos atingir com quaisquer quer sejam os recursos humanos.

Só o que há a fazer, depois desse afastamento irrefletido é seguir. Seguimos, com as impressões causadas. O temor, o respeito, o prazer e o desconhecimento. Seguimos sem pronunciar seu nome.

Wednesday, October 04, 2006


Oktoberfest oder Wählen? Wo sollte ich am Sonntag sein?

Wednesday, September 13, 2006

salvem os nazis.

Claro que há neo-nazistas por aqui, mas eles precisam de ajuda.

mit dem Fahrrad

Sem bicicleta por aqui não se vive.
Aí vai um passeio que dei no Wannsee, a praia dos alemão de Berlin.

Saturday, September 09, 2006

vista

uma vista da janela do meu quarto.

Tuesday, September 05, 2006

Turco, a língua do "Pê".

Conheci um turco bem legal. Ele ficou tentando me explicar a origem da língua dele, e me esclareceu umas coisas curiosas.
O turco é uma língua de origem asiática. Usava a escrita árabe até uns dois séculos atrás. Hoje usa o nosso alfabeto.
Ele me disse que, em turco, as palavras mudam de acordo com os sons das palavras antecedentes. Um verbo “declina”, por assim dizer (não é uma declinação, na verdade, porque essa variação não tem nenhuma implicação sintática, é algo fonético somente), de acordo com o som da palavra que o acompanha.
É como se disséssemos “viajei a pé” e tivesse de ficar “a pé viéjei”.
Se fosse de avião, seria :“de avião viãojei”.
E, se fosse de moto, seria: de moto viójei.

Portanto, o turco é como a língua do “p”. A cada sílaba, o som se repete, segundo ele, para deixar a frase “soando melhor”. Por isso que a gente sempre acha estranho como tudo parece estar tão cheio de vogais. Eu acho que isso se dá porque, exatamente, as vogais se repetem acentuando sua presença nas palavras.

Isso até que parece bem fácil. O problema é que a palavra muda, inclusive, de acordo com a pronúncia. Se os mais velhos falam a palavra de uma forma diferente, ela vai mudar de acordo com o modo como a pronunciam... E o mesmo vale pra o uso de palavras estrangeiras. Pois que, pronunciadas por um turco, elas saem diferentes e, logo, ganham uma “fonação” diferente. É como se o que mais valesse fosse a eufonia da frase em detrimento da integridade semântica dos morfemas. Lembro que, quando era pequeno, minha avó ficava brincando comigo, com a língua do Guê, ou do Pê... Bem, aposto que ela daria uma boa turco-falante... hehehe

Bem, depois falo um pouco mais dos turcos. Eles em Berlim são algo extremamente visível. Falam uma língua própria, um quase-dialeto, na verdade, chamada já de alemão turco. Dão a impressão de que vão tomar a cidade, sobretudo em alguns bairros, como Neuköln. No bairro em que estou também há muitos turcos, mas eles se misturam com poloneses, bósnios, croatas e outros tipos. Pelo que já ouvi, há vários problemas que estão velados por aqui, em relação a isso... Há escolas aqui no bairro em que já não há nenhuma criança alemã. O que aconteceu, em maio, em Paris, não parece ser algo tão distante daqui.

Thursday, August 31, 2006

Bebo da priula


Acho que a vida deve ser meio chata por aqui. As turma bebem muito. Tá vendo no cantinho da foto, um cara no chão com uma bicicleta? aquilo não foi uma queda simplesmente. Ele caiu, mas, na verdade, tem dificuldades até de se mexer de tão bêbado. E não é primeira vez que vejo isso.Tem muita gente doidona pelo metrô, pela rua, nos parques. Muitas vezes até sem precisar beber, hehe...
A dúvida que resta, segundo Ivan, um amigo meu daqui, é:
No brasil a gente não vê esses doidos porque não há ou porque eles não ficam pela rua?

Wednesday, August 30, 2006

diferenças entre as cidades... Aqui e lá...

Li uma vez, os capítulos de Levi-Strauss, no "Tristes Trópicos", sobre sua chegada no Rio e em São Paulo. Ele dizia que seu sentimento, apesar de todas as diferenças que havia entre aquelas cidades e a Paris dos anos 1920, em que vivia, não foi de tanta surpresa. Não lhe causara impressão aquilo tudo porque, no fim, eram todas cidades com mais ou menos a mesma origem, parte da mesma civilização. Tudo era um pouco parecido com o que já havia visto. Suas primeiras impressões, portanto, jamais poderiam ser comparadas àquelas dos viajantes medievais que se aventuraram no oriente.
Mas claro que havia particularidades. Segundo ele, elas se deviam a uma aparente decadência do casario das cidades brasileiras. Elas lhe lembravam do Marrais, bairro que, se hoje virou um badalado e rico bairro de artistas, naquela época era decadente e pobre. Supunha que a causa disso era que as cidades brasileiras, aparentemente, não eram feitas para durar. Eram feitas em circunstâncias sempre urgentes, de modo que a decadência das suas fachadas era questão de muito pouco tempo. E a vida era de certo modo vivida às pressas, sem uma noção de monumentalidade que dá a impressão de fazer parte de um movimento mais importante da história. Podíamos dizer, mesmo, que a vida brasileira das cidades é, em todos os seus aspectos, uma vida comprada a retalho, como dizia João Cabral.

Bem, acho que ele tinha razão, em grande parte. As cidades se parecem, porque o que se pode fazer, em todas elas, é bem parecido. Vivemos num mundo que se ocidentalizou e em que não há mais diferenças tão absurdas de um lugar para outro. O que as distingue é, sobretudo, a forma como se organizam de acordo com as possibilidades, digamos logo, econômicas de planejar a vida de acordo com certos padrões mínimos de qualidade e conforto e, no longo prazo, de modo mais sustentável, para usar esse vocabulário brega.

As nossas cidades não são construídas considerando que a rua deve ser um ambiente bonito, confortável para a vista e para as pessoas. Tudo é feito, de certa forma, de modo apressado, barato, de modo a apresentar o melhor rendimento, numa luta por quem consegue ocupar mais espaço, ou melhor espaço, importando muito pouco o resultado final para a vida comum. Se olharmos para o centro do recife, para a Avenida Guararapes, para a Conde da Boa Vista, mesmo para o Bairro do Recife, veremos que não há preocupação com a paisagem, com a visibilidade, com o conforto de quem anda. Parece que não podemos nos dar o luxo de uma vida decente de que todos sejam parte. Tudo é arranjado, tudo é gambiarra... Talvez por isso sejamos tão pouco dados a ficar na rua. Ou se está em um carro, em um ônibus, ou se está dentro de algum lugar... Sobretudo a classe média totalmente apartamentalizada de que fazemos parte, que está se acostumando com a superficialidade de uma decoração limpinha e cafona. Às vezes, parece que vivemos em confinamento, quando temos um clima que nos possibilitaria ficar na rua quase o ano inteiro.

Sei que se pode argumentar que essa não é uma questão relevante quando há outras, bem mais urgentes. Entrentanto, esse pode ser apenas mais um sintoma de um déficit de reconhecimento recíproco e igual entre todos os que se encontram em cidades como as brasileiras. Negamos-nos a compartilhar a rua com um tipo de gente que não consideramos gente, e não nos preocupamos com esse espaço, por simplesmente nos abstermos de freqüentá-lo. Não sei se devemos esperar por um desenvolvimento econômico que, sempre acreditamos, virá para criar os espaços públicos comuns de igualdade em que todos sejam um pouco mais felizes, em conjunto. Talvez esses próprios espaços sejam mesmo aquele nó que falta desatar, inclusive, no caminho do desenvolvimento econômico.

Saturday, August 26, 2006



Um pedaço daquele muro no checkpoint charlie... essa porra virou também um shopping center.

sentimento de dever de cachorro de alemão

Mais sobre essa história do sentimento de dever dos alemães. Acho que isso é tão forte aqui que passa até pro cachorro deles. Ontem estava na porta do supermercado esperando um amigo comprar umas coisas e vi outra cena que foi bem engraçada.

O cara foi fazer compras com o cachorro, mas claro que não podia entrar com ele no supermercado. Deixou o bichano solto, na porta da loja, e mandou ele ficar esperando, ali na frente, por ele. Pois que o cara entrou, e passei ainda uns 10 minutos assistindo à cena.

O cachorro completamente transtornado, de tristeza, louco pra entrar no supermercado, mas só olhando pra porta. Aproximava-se dela, atento, olhando se alguém iria notá-lo. Mas de modo algum entrou. Estava completamente livre, podia ter ido aonde quisesse, estava também absolutamente só. Mas ficou lá, por todo o tempo em que observei, dando alguns passos, mas respeitando totalmente a ordem que lhe houvera sido dada.
Hehe.. Até os cachorros aqui devem ter neuroses... putz.

sentimento de dever do alemão

Percebi o quanto os alemães têm um senso de dever diferente do nosso. E me surpreendi por compartilhar de um certo espírito típico brasileiro que nos faz tão suscetíveis ao “jeitinho” malandro e à picaretagem. Coisa que eu desprezo, e quando encontro de alguém procuro sempre evitar. É bom ter essas experiências para que possamos terapeuticamente reavaliar até que ponto devemos continuar ou negar as tradições de onde viemos.
Estava num Biergarten com dois amigos italianos, e um deles pediu algo para comer. O alemão que atendia na barraca apontou para as salsichas assadas e disse que o prato que ele houvera pedido não estaria tão bom, porque já havia assado as salsichas há alguns minutos. Seria melhor ele pedir outro, que ele acabava de preparar...
Bem, tudo certo, um alemão simpático, que sugerira uma opção melhor para o cliente. Porém, as salsichas não pareciam tão mal. E o que mais era estranho era a diferença de preço entre os pratos. Enquanto o que o italiano houvera pedido antes custava 6,50€, o outro custava apenas 1,50€.
Como já havia tomado umas mais de três cervejas, daquelas de 500ml, arrisquei tirar uma brincadeirinha com o alemão, no meu alemão rabujento.
Disse a ele que era tão simpático que virara um mal vendedor... mas tudo num tom de elogio e brincadeira.
Mas ele fechou a cara, deu-me um fora, e perguntou se eu queria alguma coisa, pois ele estava fechando o bar e não podia conversar.
Depois, pensei direitinho. Realmente tinha feito uma ofensa ao sentimento de dever do doideira. Disse a ele, no fundo, que ele deveria ter sido desonesto para faturar em cima do turista... Claro que foi em tom de brincadeira, mas a reação deixou bem claro pra mim o tamanho do sentimento de dever desses caras. É algo impressionante.
Depois disso, acho que é completamente possível não contar o troco dado em moedas por um caixa de supermercado. Esses alemães são confiáveis; acho que desde pequeno são obrigados a introjectar esse sentimento forte de dever que nós temos de modo... hehe... diferente.
Claro que tem corrupção aqui, mas 1º a economia eleitoral tem uma lógica própria mesmo no mundo todo, e 2º quando se trata de muita grana e muito poder, o sentimento pode se tornar relativo. Mas acho difícil que alguém seja corrupto no dia a dia... Isso, claro, ajuda, também, a reduzir a corrupção na política e em todas as esferas da vida pública.
Lembrei então de uma suposta declaração de Lenin. Ele dizia que se houvesse uma revolução na alemanha, seria formada uma fila e seria cobrada entrada para organizar a história toda.

Tuesday, August 15, 2006

revirando-se?



O que iria dizer Kant de ter virado nome de cinema?

Em cartaz: Piratas do Caribe 2.


e centro comercial?

Saturday, August 05, 2006

Novos rumos pra esse pedaço de blog

Retomando esse blog, vou transformá-lo em um diário de viagem. Aproveitando o fato de que estou em Berlin, desde ontem à noite, vou tentar dar motivo pra fazer desse blog, tão eternamente parado, algo um pouco mais vivo.

Bem... Não vai ser fácil, pois que ao mesmo tempo que há pouco tempo, porque é sempre um desperdício de tempo ficar pensando nisso durante o tempo em que poderia estar na rua, ainda há o fato de que é tanta coisa ao mesmo tempo nem sempre me lembrarei das coisas que poderiam caber aqui...


Bem, já em tempo:
Vou tentar falar das impressões que tenho e sobre as coisas por que se vai passando.

Friday, June 02, 2006

quem é o cético? quem é o utopista?

Toda crítica é, em certa medida, idealista. É um olhar por sobre o que é, com vistas ao que pode ser... ela nega o mundo por se incomodar e por querer vê-lo de alguma maneira distinto... Ao pensá-lo de modo diferente, ela já de alguma forma age sobre ele para alterá-lo, o dever de agir que o pensamento engendra, com efeito, já é uma mudança substancial no que cerca o crítico.
Bem, quem critica quer, em suma, algo melhor. Algo que, portanto, não existe, pois que ainda não é. O que vem a ser, sempre é, assim, necessariamente irreal.
Mas se o real é tudo quanto há, se não pode haver algo diferente, que dependa de quem vive, se quem vive é parte do real sem que possa conhecer o que não é, não pode haver qualquer crítica. Pois toda crítica é uma crença absurda na fantasia, uma forma culto, ritual de amor ao intangível.
Coisa de místico, de doidão, por fim.
O idealista é o utopista. Como disse Musil, é aquele que tem, além de senso de realidade, o que é algo sem o que não se vive, senso de possibilidade. Ele imagina o que não é, mesmo vendo o que é, em toda parte. E, por isso, é chamado, muitas vezes, sonhador, idiota ou mesmo, apenas, utopista.
Ele é bem diferente do cético. Esse descrê na crítica e na sua possibilidade. É verdade que não pode nunca deixar de crer no real, os mais perspicazes já perceberam que, se negam o real, perdem sua condição de céticos. Então o que fazem é não se comprometer. Eles tem senso de realidade, mas vêem o que há somente como o que é, e como tudo. Não há melhor; nem pior; só o que há, do que são parte, sem que possam querer algo diferente, que seja exeqüível por sua vontade, isso tudo lhes parece sempre muito idealista, para não dizer irrealista.
O cético não se compromete; não quer acertar, é indiferente, e o faz para que não seja forçado a errar. Não comete nenhum mal que não aquele que sempre já foi perpetrado. Não provoca um novo Bem, tampouco um novo Mal. Se há uma tal coisa, não lhe cabe julgar, se assim o é, sempre o foi, é o que é, porque é como era quando ele aqui chegou.
O utopista vê o real, sente seu peso sobre os ombros, mas se dispõe sempre a vislumbrar o irreal. Seu senso de possibilidade lhe aponta ao futuro, desde onde está, com passado indisponível, mas joga-o mesmo é ao futuro, esse que lhe é como um totem daqueles que despertavam o pavor curioso e respeitoso do divino, nos primeiros homens.
O cético crê, claro que crê, mas só no que há, sem que seja preciso crer nesses totens insanos. Por fim, seu senso de realidade subjugou completamente seu senso de possibilidade.
Se há algo em que o cético não acredita, portanto, é no que não é. O ser cético não passa de uma crença profunda naquilo que já sempre se recebeu, quando aqui se chegou: a realidade. Como se esta fosse, por fim, assim tão crível...

Monday, May 22, 2006

Aristóteles e o porteiro

Como tantos têm ou já tiveram, tive hoje um problema com um porteiro.

Manhã de uma segunda feira, chovia muito, mas muito. Raciocinei, ao sair do curso de francês, que, embora meu carro estivesse em um ponto do estacionamento que tinha acesso ao interior do edifício, pelo fato de chover tanto, deveria escolher um caminho que me faria evitar caminhar, obrigatoriamente, alguns metros dentro da lama. Pois que o acesso interior não era, em realidade, abrigado da chuva, e, apesar de percorrer um caminho externo ao curso, o caminho alternativo me faria evitar tanto a lama, como uma exposição talvez ainda maior ao aguaceiro.

Havia saído bem cedo, pronto para um dia inteiro de trabalho, alguns metros dentro da lama iriam me tomar não só tempo, por ter de trocar, em casa, os sapatos, mas também o bom humor e a disposição para um dia produtivo. De forma que decidi pelo que todo e qualquer um faria em meu lugar: tentei evitar a lama nos meus pés secos.

Correndo, por não ter o feliz hábito de portar um guarda-chuva numa cidade e num mês como esses, fui dar com a cara no portão do estacionamento. Bati uma vez, sem resultado; bati uma segunda vez, enquanto me ensopava completamente na chuva, e, finalmente, ouvi o ranger do portão. Mas ao tentar, obviamente apressado, atravessá-lo em direção a um abrigo qualquer, fui contido pelo porteiro, quando já podia ver meu carro, pela fresta deixada entreaberta enquanto me falava.

Com certa aspereza, disse-me que não poderia passar, pois que havia recebido ordens expressas para não deixar ninguém passar a não ser carros. Enquanto pronunciava a palavra "carros", pude fitar o meu próprio, já com certa ansiedade, de modo que simplesmente ignorei o teor da proibição que me impunha. Tentei, meio que irrefletidamente, insistir na passagem como que sem dar ouvidos à sua voz. Foi aí que, fechando o portão, ele confirmou a negativa, tendo eu então percebido que teria de passar alguns momentos mais na chuva.

Agora, imagino, o leitor deve se perguntar em que momento Aristóteles pode ter algo a ver com a história. Pois bem, fato é que, enquanto furioso, alguns minutos depois, eu dirigia para casa, com os pés totalmente encharcados pela água barrenta, lembrava do porteiro de modo não muito grato e, ao mesmo tempo, tudo o que me pôde consolar houvera sido Aristóteles. Digo o porquê.

Isso porque, obviamente, ao ter a negativa confirmada por aquele tão resignado cumpridor de ordens, insisti, dessa vez com palavras.

Indiquei-lhe o que já deveria parecer por demais óbvio, até mesmo para ele, embaixo de uma grossa capa de chuva azul: chovia! A sua resposta, pareceu-me, a ele, tão óbvia quanto o próprio fato por mim indicado. Abriu o portão a me mostrar um cartaz, colado em papel já bastante molhado, em que se lia somente: proibida a entrada de pedestres.

Bem, eu continuei. Disse-lhe que apesar daquela norma estar provavelmente correta, dele estar certo em querer cumpri-la, chovia muito, e uma exceção num momento como aquele, não seria algo a ameaçar toda a razão que tinham ele e a tão bem imposta ordem. Se eu necessitasse dar meia volta, seria obrigado a tomar a chuva toda até a entrada para pedestres, depois, novamente, mais chuva, até chegar ao estacionamento, que não era coberto, e ainda teria de cortar uma poça de lama nada pequena.

Enquanto falava, sua cabeça realizava um movimento negativo que só parava de observar para ajudar com as mãos o escorrimento da água sobre o meu rosto. Não acreditando ainda que seria obrigado a retornar, graças à estreiteza de um senhor que poderia muito bem, mesmo que por compaixão, permitir minha entrada, continuei; argumentei que, naquele momento, o responsável pela decisão seria ele mesmo, e que, certamente, o autor da regra, se pudesse haver previsto uma situação como aquela, faria constar logo abaixo, uma exceção, tipo: se, num dia de chuva, algum desavisado insistir em entrar, ele deverá poder fazê-lo, levando apenas a advertência de que será a última vez.

Sua resposta foi direta:
- Você diz isso porque não conhece o presidente, aqui do negócio. A ordem é dele, não tem exceção.

Já irritado, mas contido, apontei para o meu carro, e para a poça de lama, imensa, ao seu lado, mostrei que seria obrigado, se tivesse de voltar, a tomar mais chuva, o que, agora, já nem era um problema, visto já estar realmente muito molhado, mas, além disso, seria obrigado a caminhar dentro de toda aquela lama. Apelei, disse que, ali, naquele momento, a questão era entre eu e ele, ninguém iria saber, e que ele estaria fazendo realmente o correto ao me deixar passar. Claro, pois não poderia ser correto obrigar uma pessoa a andar na chuva, a caminhar na lama, somente porque uma regra idiota proibia a entrada de pedestres. Disse-lhe que, se ligasse para o tal presidente, se lhe explicasse a situação, que estava na chuva, que havia lama, que era um rapaz educado, que não estava querendo zonear a instituição, mas apenas evitar a chuva, tinha certeza que a norma seria flexibilizada. Ele seria inteligente o suficiente para perceber que não fazia sentido ser tão rigoroso.

Respondeu que eu realmente não conhecia o tal presidente, que ele não deixaria eu entrar nada, que não iria se arriscar a perder o emprego, e ponto final.

Decidido, o porteiro disse, por fim, que “ordens eram ordens”, e que ele estava ali para cumpri-las. Fechou o portão e me vi deixado na chuva.

Corri, entrei na lama, água até a canela, entrei no carro e enquanto manobrava, deixando transparecer toda minha raiva, Aristóteles veio a minha cabeça.

Não houvera adiantado. Argumentei, recorri a toda descrição situacional possível, mas havia faltado ao meu amigo porteiro o mínimo de sensibilidade para perceber que a exceção era parte da própria regra. Aristóteles parecia estar certo, a capacidade de estar atento ao particular de cada situação, é algo que não se ensina, é algo que não se desperta por uma crítica baseada em argumentos de justiça. É algo que se adquire, na vida, por meio de experiências que nos tornem mais relativistas quanto ao dever da lei, da ordem. Que nos torne naturalmente capazes de perceber que aquele caso requer uma decisão especial, uma decisão justa que só serve para o seu aqui e agora. Numa situação como aquela, o homem virtuoso deveria ser capaz de cumprir o dever sem me obrigar a andar na lama, e o porteiro, aquele f.d.p, poderia ter sido sensível ao fato de que aquela regra não havia sido feita para dias de chuva, para sapatos secos, para estudantes com um dia de trabalho duro pela frente.

A minha raiva foi abrandada, então, com a resolução de que aquele não era um homem virtuoso. Percebi que, aquele que não é virtuoso, pode ser dito, em poucas palavras: um filho da puta.

o escopo central do presente blog

Vou escrever aqui besteiras e inutilidades que venham à cabeça. Comentários sobre o que estou lendo, sobre o que vi e me pareceu interessante, ou sobre aqueles acontecimentos que de tão únicos, tão particulares, nos ensinam mais sobre o que é universal.
Não há qualquer talento em vista. Não há qualquer talento no autor nem no que ele escreve. Quem busque algum talento, que vá ao blog da Bruna surfistinha. Só publicarei o que for dispensável, o que for inútil, o que sair de uma cabeça desocupada e sem qualquer capacidade de reflexão mais apurada.
Pensei um pouco antes de empreender essa tarefa, mas descobri que o tempo que reservamos para dedicar a esse tipo de “passa-tempo” está exatamente entre aquele que nós precisamos desperdiçar inutilmente para que nos reste algum tempo realmente útil.
Como estou virando um pragmático, no mal sentido, a utilidade se tornou algo central, de modo que só penso na produtividade, no tempo líquido, no resultado das coisas.
E, como, por outro lado, a inutilidade é útil à utilidade, tentarei fazer, enquanto escrevo para esse blog, exatamente algo inútil com o meu tempo.

A quem quiser perder algum tempo, esse blog poderá interessar um pouco; a quem perde tempo com outras inutilidades, à vontade...
Essa é minha inutilidade particular e uma forma pela qual poderei compartilhar de observações em sua maioria inúteis sem qualquer fim realmente útil, com leitores que, a rigor, não me servirão de nada.

Como há quem diga que a boa leitura não tem que ser útil, pode ser que, no fim, como leitura, essa história se torne útil em algum sentido. O que será uma pena, pois me dará trabalho arrumar outra coisa inútil para fazer.