Aristóteles e o porteiro
Como tantos têm ou já tiveram, tive hoje um problema com um porteiro.
Manhã de uma segunda feira, chovia muito, mas muito. Raciocinei, ao sair do curso de francês, que, embora meu carro estivesse em um ponto do estacionamento que tinha acesso ao interior do edifício, pelo fato de chover tanto, deveria escolher um caminho que me faria evitar caminhar, obrigatoriamente, alguns metros dentro da lama. Pois que o acesso interior não era, em realidade, abrigado da chuva, e, apesar de percorrer um caminho externo ao curso, o caminho alternativo me faria evitar tanto a lama, como uma exposição talvez ainda maior ao aguaceiro.
Havia saído bem cedo, pronto para um dia inteiro de trabalho, alguns metros dentro da lama iriam me tomar não só tempo, por ter de trocar, em casa, os sapatos, mas também o bom humor e a disposição para um dia produtivo. De forma que decidi pelo que todo e qualquer um faria em meu lugar: tentei evitar a lama nos meus pés secos.
Correndo, por não ter o feliz hábito de portar um guarda-chuva numa cidade e num mês como esses, fui dar com a cara no portão do estacionamento. Bati uma vez, sem resultado; bati uma segunda vez, enquanto me ensopava completamente na chuva, e, finalmente, ouvi o ranger do portão. Mas ao tentar, obviamente apressado, atravessá-lo em direção a um abrigo qualquer, fui contido pelo porteiro, quando já podia ver meu carro, pela fresta deixada entreaberta enquanto me falava.
Com certa aspereza, disse-me que não poderia passar, pois que havia recebido ordens expressas para não deixar ninguém passar a não ser carros. Enquanto pronunciava a palavra "carros", pude fitar o meu próprio, já com certa ansiedade, de modo que simplesmente ignorei o teor da proibição que me impunha. Tentei, meio que irrefletidamente, insistir na passagem como que sem dar ouvidos à sua voz. Foi aí que, fechando o portão, ele confirmou a negativa, tendo eu então percebido que teria de passar alguns momentos mais na chuva.
Agora, imagino, o leitor deve se perguntar em que momento Aristóteles pode ter algo a ver com a história. Pois bem, fato é que, enquanto furioso, alguns minutos depois, eu dirigia para casa, com os pés totalmente encharcados pela água barrenta, lembrava do porteiro de modo não muito grato e, ao mesmo tempo, tudo o que me pôde consolar houvera sido Aristóteles. Digo o porquê.
Isso porque, obviamente, ao ter a negativa confirmada por aquele tão resignado cumpridor de ordens, insisti, dessa vez com palavras.
Indiquei-lhe o que já deveria parecer por demais óbvio, até mesmo para ele, embaixo de uma grossa capa de chuva azul: chovia! A sua resposta, pareceu-me, a ele, tão óbvia quanto o próprio fato por mim indicado. Abriu o portão a me mostrar um cartaz, colado em papel já bastante molhado, em que se lia somente: proibida a entrada de pedestres.
Bem, eu continuei. Disse-lhe que apesar daquela norma estar provavelmente correta, dele estar certo em querer cumpri-la, chovia muito, e uma exceção num momento como aquele, não seria algo a ameaçar toda a razão que tinham ele e a tão bem imposta ordem. Se eu necessitasse dar meia volta, seria obrigado a tomar a chuva toda até a entrada para pedestres, depois, novamente, mais chuva, até chegar ao estacionamento, que não era coberto, e ainda teria de cortar uma poça de lama nada pequena.
Enquanto falava, sua cabeça realizava um movimento negativo que só parava de observar para ajudar com as mãos o escorrimento da água sobre o meu rosto. Não acreditando ainda que seria obrigado a retornar, graças à estreiteza de um senhor que poderia muito bem, mesmo que por compaixão, permitir minha entrada, continuei; argumentei que, naquele momento, o responsável pela decisão seria ele mesmo, e que, certamente, o autor da regra, se pudesse haver previsto uma situação como aquela, faria constar logo abaixo, uma exceção, tipo: se, num dia de chuva, algum desavisado insistir em entrar, ele deverá poder fazê-lo, levando apenas a advertência de que será a última vez.
Sua resposta foi direta:
- Você diz isso porque não conhece o presidente, aqui do negócio. A ordem é dele, não tem exceção.
Já irritado, mas contido, apontei para o meu carro, e para a poça de lama, imensa, ao seu lado, mostrei que seria obrigado, se tivesse de voltar, a tomar mais chuva, o que, agora, já nem era um problema, visto já estar realmente muito molhado, mas, além disso, seria obrigado a caminhar dentro de toda aquela lama. Apelei, disse que, ali, naquele momento, a questão era entre eu e ele, ninguém iria saber, e que ele estaria fazendo realmente o correto ao me deixar passar. Claro, pois não poderia ser correto obrigar uma pessoa a andar na chuva, a caminhar na lama, somente porque uma regra idiota proibia a entrada de pedestres. Disse-lhe que, se ligasse para o tal presidente, se lhe explicasse a situação, que estava na chuva, que havia lama, que era um rapaz educado, que não estava querendo zonear a instituição, mas apenas evitar a chuva, tinha certeza que a norma seria flexibilizada. Ele seria inteligente o suficiente para perceber que não fazia sentido ser tão rigoroso.
Respondeu que eu realmente não conhecia o tal presidente, que ele não deixaria eu entrar nada, que não iria se arriscar a perder o emprego, e ponto final.
Decidido, o porteiro disse, por fim, que “ordens eram ordens”, e que ele estava ali para cumpri-las. Fechou o portão e me vi deixado na chuva.
Corri, entrei na lama, água até a canela, entrei no carro e enquanto manobrava, deixando transparecer toda minha raiva, Aristóteles veio a minha cabeça.
Não houvera adiantado. Argumentei, recorri a toda descrição situacional possível, mas havia faltado ao meu amigo porteiro o mínimo de sensibilidade para perceber que a exceção era parte da própria regra. Aristóteles parecia estar certo, a capacidade de estar atento ao particular de cada situação, é algo que não se ensina, é algo que não se desperta por uma crítica baseada em argumentos de justiça. É algo que se adquire, na vida, por meio de experiências que nos tornem mais relativistas quanto ao dever da lei, da ordem. Que nos torne naturalmente capazes de perceber que aquele caso requer uma decisão especial, uma decisão justa que só serve para o seu aqui e agora. Numa situação como aquela, o homem virtuoso deveria ser capaz de cumprir o dever sem me obrigar a andar na lama, e o porteiro, aquele f.d.p, poderia ter sido sensível ao fato de que aquela regra não havia sido feita para dias de chuva, para sapatos secos, para estudantes com um dia de trabalho duro pela frente.
A minha raiva foi abrandada, então, com a resolução de que aquele não era um homem virtuoso. Percebi que, aquele que não é virtuoso, pode ser dito, em poucas palavras: um filho da puta.
Manhã de uma segunda feira, chovia muito, mas muito. Raciocinei, ao sair do curso de francês, que, embora meu carro estivesse em um ponto do estacionamento que tinha acesso ao interior do edifício, pelo fato de chover tanto, deveria escolher um caminho que me faria evitar caminhar, obrigatoriamente, alguns metros dentro da lama. Pois que o acesso interior não era, em realidade, abrigado da chuva, e, apesar de percorrer um caminho externo ao curso, o caminho alternativo me faria evitar tanto a lama, como uma exposição talvez ainda maior ao aguaceiro.
Havia saído bem cedo, pronto para um dia inteiro de trabalho, alguns metros dentro da lama iriam me tomar não só tempo, por ter de trocar, em casa, os sapatos, mas também o bom humor e a disposição para um dia produtivo. De forma que decidi pelo que todo e qualquer um faria em meu lugar: tentei evitar a lama nos meus pés secos.
Correndo, por não ter o feliz hábito de portar um guarda-chuva numa cidade e num mês como esses, fui dar com a cara no portão do estacionamento. Bati uma vez, sem resultado; bati uma segunda vez, enquanto me ensopava completamente na chuva, e, finalmente, ouvi o ranger do portão. Mas ao tentar, obviamente apressado, atravessá-lo em direção a um abrigo qualquer, fui contido pelo porteiro, quando já podia ver meu carro, pela fresta deixada entreaberta enquanto me falava.
Com certa aspereza, disse-me que não poderia passar, pois que havia recebido ordens expressas para não deixar ninguém passar a não ser carros. Enquanto pronunciava a palavra "carros", pude fitar o meu próprio, já com certa ansiedade, de modo que simplesmente ignorei o teor da proibição que me impunha. Tentei, meio que irrefletidamente, insistir na passagem como que sem dar ouvidos à sua voz. Foi aí que, fechando o portão, ele confirmou a negativa, tendo eu então percebido que teria de passar alguns momentos mais na chuva.
Agora, imagino, o leitor deve se perguntar em que momento Aristóteles pode ter algo a ver com a história. Pois bem, fato é que, enquanto furioso, alguns minutos depois, eu dirigia para casa, com os pés totalmente encharcados pela água barrenta, lembrava do porteiro de modo não muito grato e, ao mesmo tempo, tudo o que me pôde consolar houvera sido Aristóteles. Digo o porquê.
Isso porque, obviamente, ao ter a negativa confirmada por aquele tão resignado cumpridor de ordens, insisti, dessa vez com palavras.
Indiquei-lhe o que já deveria parecer por demais óbvio, até mesmo para ele, embaixo de uma grossa capa de chuva azul: chovia! A sua resposta, pareceu-me, a ele, tão óbvia quanto o próprio fato por mim indicado. Abriu o portão a me mostrar um cartaz, colado em papel já bastante molhado, em que se lia somente: proibida a entrada de pedestres.
Bem, eu continuei. Disse-lhe que apesar daquela norma estar provavelmente correta, dele estar certo em querer cumpri-la, chovia muito, e uma exceção num momento como aquele, não seria algo a ameaçar toda a razão que tinham ele e a tão bem imposta ordem. Se eu necessitasse dar meia volta, seria obrigado a tomar a chuva toda até a entrada para pedestres, depois, novamente, mais chuva, até chegar ao estacionamento, que não era coberto, e ainda teria de cortar uma poça de lama nada pequena.
Enquanto falava, sua cabeça realizava um movimento negativo que só parava de observar para ajudar com as mãos o escorrimento da água sobre o meu rosto. Não acreditando ainda que seria obrigado a retornar, graças à estreiteza de um senhor que poderia muito bem, mesmo que por compaixão, permitir minha entrada, continuei; argumentei que, naquele momento, o responsável pela decisão seria ele mesmo, e que, certamente, o autor da regra, se pudesse haver previsto uma situação como aquela, faria constar logo abaixo, uma exceção, tipo: se, num dia de chuva, algum desavisado insistir em entrar, ele deverá poder fazê-lo, levando apenas a advertência de que será a última vez.
Sua resposta foi direta:
- Você diz isso porque não conhece o presidente, aqui do negócio. A ordem é dele, não tem exceção.
Já irritado, mas contido, apontei para o meu carro, e para a poça de lama, imensa, ao seu lado, mostrei que seria obrigado, se tivesse de voltar, a tomar mais chuva, o que, agora, já nem era um problema, visto já estar realmente muito molhado, mas, além disso, seria obrigado a caminhar dentro de toda aquela lama. Apelei, disse que, ali, naquele momento, a questão era entre eu e ele, ninguém iria saber, e que ele estaria fazendo realmente o correto ao me deixar passar. Claro, pois não poderia ser correto obrigar uma pessoa a andar na chuva, a caminhar na lama, somente porque uma regra idiota proibia a entrada de pedestres. Disse-lhe que, se ligasse para o tal presidente, se lhe explicasse a situação, que estava na chuva, que havia lama, que era um rapaz educado, que não estava querendo zonear a instituição, mas apenas evitar a chuva, tinha certeza que a norma seria flexibilizada. Ele seria inteligente o suficiente para perceber que não fazia sentido ser tão rigoroso.
Respondeu que eu realmente não conhecia o tal presidente, que ele não deixaria eu entrar nada, que não iria se arriscar a perder o emprego, e ponto final.
Decidido, o porteiro disse, por fim, que “ordens eram ordens”, e que ele estava ali para cumpri-las. Fechou o portão e me vi deixado na chuva.
Corri, entrei na lama, água até a canela, entrei no carro e enquanto manobrava, deixando transparecer toda minha raiva, Aristóteles veio a minha cabeça.
Não houvera adiantado. Argumentei, recorri a toda descrição situacional possível, mas havia faltado ao meu amigo porteiro o mínimo de sensibilidade para perceber que a exceção era parte da própria regra. Aristóteles parecia estar certo, a capacidade de estar atento ao particular de cada situação, é algo que não se ensina, é algo que não se desperta por uma crítica baseada em argumentos de justiça. É algo que se adquire, na vida, por meio de experiências que nos tornem mais relativistas quanto ao dever da lei, da ordem. Que nos torne naturalmente capazes de perceber que aquele caso requer uma decisão especial, uma decisão justa que só serve para o seu aqui e agora. Numa situação como aquela, o homem virtuoso deveria ser capaz de cumprir o dever sem me obrigar a andar na lama, e o porteiro, aquele f.d.p, poderia ter sido sensível ao fato de que aquela regra não havia sido feita para dias de chuva, para sapatos secos, para estudantes com um dia de trabalho duro pela frente.
A minha raiva foi abrandada, então, com a resolução de que aquele não era um homem virtuoso. Percebi que, aquele que não é virtuoso, pode ser dito, em poucas palavras: um filho da puta.

1 Comments:
Rapaz, pôr em risco o emprego, numa época dessas, é muito complicado. Colocando no outro lado da balança um atraso ou, no máximo, uma possível gripe em outrém, eu provavelmente tomaria a mesma resolução que ele.
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