Tuesday, August 05, 2008

Quanto valem 10 brasileiros?

Há algumas semanas atrás, cheguei no instituto onde trabalho (ou estudo, se estudar nao puder ser considerado trabalho) e comentei com Alex (alexander) sobre a notícia da prisao de um figurao rico brasileiro.
Alex é um alemao típico. Faz doutorado em economia. É sério, calado e discipinado. Vem do sul, de Baden-Würtenberg. Talvez tenha se tornado o único amigo alemao, no sentido alemao da palavra, que fiz até agora por aqui.
Pela manha, costumamos tomar um café, se estiver frio, antes de comecar a trabalhar. A certa altura, numa manhã chuvosa, enquanto tomávamos café, ele perguntou, como faz vez por outra:
- Und am sonsten?...
Algo que significa mais ou menos como nosso: - E aí? que é que tu contas de novo?
Eu disse, com certa empolgacao, que antes de sair de casa havia lido uma notícia bastante instigante nos jornais brasileiros. Havia sido preso um dos homens mais ricos do Brasil, e um dos maiores corruptos conhecidos, envolvido na compra de políticos, juízes, jornalistas e jornais. Emendei com o juízo otimista de que isso era muito bom. Para mim parecia um sinal de que a indignacao com esse tipo de gente estava ganhando contornos institucionais no Brasil.
Alex olhou para mim com cara de quem queria terminar seu café, cara de quem nao queria se esforcar muito para entender o porquê do meu aparente êxtase. Realmente, ele nao deu muita bola pra história. Achou meio natural a história toda. Deve ter achado curioso como eu poderia estar tao excitado com algo que lhe parecia absolutamente banal, para nao dizer, aliás, aborrecido. Demonstrou uma certa fleuma que os alemaes dispensam a todo e qualquer tema que nao seja de seu interesse direto, individual até. Um ceticismo que eles têm em relacao a temas políticos que é, mesmo entre intelectuais, como meu orientador, bastante visível. Apesar de nao querer significar uma indiferenca normativa. Apenas um costume com os absurdos da política.
Pois bem. Hoje de manha nao estava quente. Mas, ainda assim, nos encontramos na copa. Fui tomar uma água com gás (um costume que nao tinha no brasil, mas que adquiri aqui, talvez "provincianismo imitatório" hehe) e ele estava por lá, preparando o café cuado salgado que os alemaes tomam. E dessa vez foi Alex quem me perguntou interessado: - Você viu o que aconteceu no Brasil?
Eu disse:
-Nao, o que foi? - realmente nao havia lido os jornais de hoje. Ou melhor, havia dado uma olhada ontem há noite, e nada tinha me chamado especialmente a atencao.
Mas Alex havia lido no TAZ (Tageszeitung) que 10 pessoas morreram, ontem, em uma operacao da polícia no Rio de Janeiro. Fui obrigado a dizê-lo a verdade:
-Ah, realmente li a manchete ontem. Um absurdo. Mas nao é uma coisa tao incomum assim.
Ele retrucou:
-Mas isso é muito mais sério que a prisao do banqueiro, que você comentou outro dia.
Ao que respondi:
- Nao no Brasil. No Brasil, uma notícia como essa é bastante normal.
Alex fez novamente cara de quem nao gostaria de entender o que lhe fora dito. Os brasileiros devem lhe parecer muito complicados. Ou mesmo absurdos. Mudou de assuntou: perguntou entao se eu sabia se hoje por acaso era lua cheia. Alex tem a teoria de que dorme mal quando a lua está cheia. Por isso fazia o café. E a lua, na verdade, nem está cheia.

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