Saturday, August 30, 2008

In the Bizarro World




Às vezes gosto de ver um pouco de televisão do Brasil, pela Internet. Pra saber como estão as coisas. Aliás, é incrível como, muitas vezes, tenho notícias do país antes mesmo de pessoas que moram por lá. Fico pensando como era isso há 15, 20 anos, quando as notícias chegavam pelo correio ou, quando muito, sabia-se das coisas por meio dos jornais locais de outros países que, se já hoje, aqui na Europa, dão pouco destaque para o que acontece na América Latina, deveriam achar, nessa época, que a capital do Brasil era Buenos Aires e que por lá as pessoas ainda se locomoviam a cavalo. Imagino também como era o contato com os familiares... e o impacto de uma notícia bombástica cujas repercussões era impossível acompanhar em tempo real. Se há esse lado ruim, já que se ficava com um contato realmente restrito com o país de origem, havia, por outro lado, a vantagem de que, certamente, as pessoas que vinham morar no exterior eram obrigadas a se inteirar mais rapidamente dos acontecimentos locais. Algo que deveria ajudar inclusive no aprendizado da língua.

Bem... Escrevo, na verdade, não sobre esse blá, blá, blá, de estar fora e estar dentro. Escrevo esse post, enfim, porque, embora as distâncias tenham diminuído bastante, em 10 meses de estada alemã já há coisas com que se nos acostumamos e que nos fazem olhar para Brasil de um modo diferente. Uma delas é a idéia simples e um tanto evidente (algo que os alemães poderiam chamar "selbstverständlich") de que regras de trânsito são feitas para serem cumpridas.

Vá, lá... Tampouco as coisas são assim tão estritas que cheguem a ser ridículas (apesar de chegarem a ser em alguns casos). Como sabemos, aplicar uma regra de modo cego tampouco é sinal de inteligência e maturidade moral-prática. Há de haver uma sensibilidade contextual que permita sempre que as regras sejam adequadas a contextos e situações, inclusive com a ponderação de sua finalidade e das possíveis repercussões de sua aplicação.

Às três horas da manhã, em uma cidade como Flensburg (minúscula), as pessoas não esperam 3 minutos em uma rua secundária ou local para atravessar a rua no sinal verde para pedestres. Ainda assim, diria que, na maioria das vezes, em cidades um pouco maiores, um ciclista iria esperar. E que, mesmo em Flensburg, nas ruas mais perto do centro, não é incomum ver um pedestre, na madrugada, esperar o sinal tornar-se verde para si, para que ele possa atravessar. Eu mesmo o faço, geralmente (hehe).

Carros, então... Acho que é debalde comentar. Afinal, é realmente "selbstverständlich" que regras foram feitas para ser cumpridas. E aqueles que estão num automóvel as cumprem sem que isso seja um tema de reflexão.
Pois bem. Hoje cruzei, por acaso, com uma reportagem, da Band News, sobre um fenômeno interessante. Ao ver a matéria me senti, juro, lendo um daqueles quadrinhos do Super-Man in the Bizarro world. Um mundo em que tudo é absurdo e o super-man é do mal, lutando contra o bem (no caso, o verdadeiro super-man).
A reportagem relatava que pessoas estão comprando aparelhos de GPS (aqueles aparelhinhos para facilitar a navegação urbana) para poder fugir da fiscalização de câmeras colocadas em sinais de trânsito e radares medidores de velocidade.
Até aí tudo bem. É óbvio que gente esperta, malandra e que gosta de flertar com a ilegalidade há em qualquer lugar do mundo. É óbvio que existe falcatrua também na Alemanha ou em qualquer outro sítio. O que me assustou não foi isso.
O que me estarreceu foram as pessoas que, na maior cara dura, justificavam a falcatrua com aquela velha revolta contra o governo. Alguns diziam: "A cada dia que passa aumenta a quantidade de radares. É cada vez mais complicado dirigir. está virando uma indústria da multa." Nåo deixa de ser curioso. Indústria da multa. Poderíamos, então, por que não, falar em uma indústria do direito penal, que prende e julga maloqueiros e traficantes? Mas o mundo bizarro vai além. Outro, que não conhecia a idéia, mas a achou brilhante, disse: "É, às vezes não tem como a gente identificar o radar. Isso ajudaria bastante". Por fim, uma senhorita com cara de alegre, não titubeou. E nos deu simplesmente a síntese conceitual da bizarrice: "Eu acho que esse não é o caminho não. Acho que o governo é que tinha que fazer uma fiscalização mais tranqüila".
No final, como o conceito, justo como nos ensina Hegel, ainda precisa de uma definição, apareceu na tela ainda um cientista do trânsito do mundo bizarro, dizendo que isso era bom, porque mostrava aos motoristas que, ao menos em alguns lugares, dever-se-iam cumprir as leis de trânsito. De modo que o GPS que avisa dos radares estaria conscientizando a população de que existem, afinal, leis de trânsito.
Meu deus... Me senti, juro, dentro de um mundo totalmente absurdo.
Para ver a reportagem clique aqui.

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