Li uma vez, os capítulos de Levi-Strauss, no "Tristes Trópicos", sobre sua chegada no Rio e em São Paulo. Ele dizia que seu sentimento, apesar de todas as diferenças que havia entre aquelas cidades e a Paris dos anos 1920, em que vivia, não foi de tanta surpresa. Não lhe causara impressão aquilo tudo porque, no fim, eram todas cidades com mais ou menos a mesma origem, parte da mesma civilização. Tudo era um pouco parecido com o que já havia visto. Suas primeiras impressões, portanto, jamais poderiam ser comparadas àquelas dos viajantes medievais que se aventuraram no oriente.
Mas claro que havia particularidades. Segundo ele, elas se deviam a uma aparente decadência do casario das cidades brasileiras. Elas lhe lembravam do Marrais, bairro que, se hoje virou um badalado e rico bairro de artistas, naquela época era decadente e pobre. Supunha que a causa disso era que as cidades brasileiras, aparentemente, não eram feitas para durar. Eram feitas em circunstâncias sempre urgentes, de modo que a decadência das suas fachadas era questão de muito pouco tempo. E a vida era de certo modo vivida às pressas, sem uma noção de monumentalidade que dá a impressão de fazer parte de um movimento mais importante da história. Podíamos dizer, mesmo, que a vida brasileira das cidades é, em todos os seus aspectos, uma vida comprada a retalho, como dizia João Cabral.
Bem, acho que ele tinha razão, em grande parte. As cidades se parecem, porque o que se pode fazer, em todas elas, é bem parecido. Vivemos num mundo que se ocidentalizou e em que não há mais diferenças tão absurdas de um lugar para outro. O que as distingue é, sobretudo, a forma como se organizam de acordo com as possibilidades, digamos logo, econômicas de planejar a vida de acordo com certos padrões mínimos de qualidade e conforto e, no longo prazo, de modo mais sustentável, para usar esse vocabulário brega.
As nossas cidades não são construídas considerando que a rua deve ser um ambiente bonito, confortável para a vista e para as pessoas. Tudo é feito, de certa forma, de modo apressado, barato, de modo a apresentar o melhor rendimento, numa luta por quem consegue ocupar mais espaço, ou melhor espaço, importando muito pouco o resultado final para a vida comum. Se olharmos para o centro do recife, para a Avenida Guararapes, para a Conde da Boa Vista, mesmo para o Bairro do Recife, veremos que não há preocupação com a paisagem, com a visibilidade, com o conforto de quem anda. Parece que não podemos nos dar o luxo de uma vida decente de que todos sejam parte. Tudo é arranjado, tudo é gambiarra... Talvez por isso sejamos tão pouco dados a ficar na rua. Ou se está em um carro, em um ônibus, ou se está dentro de algum lugar... Sobretudo a classe média totalmente apartamentalizada de que fazemos parte, que está se acostumando com a superficialidade de uma decoração limpinha e cafona. Às vezes, parece que vivemos em confinamento, quando temos um clima que nos possibilitaria ficar na rua quase o ano inteiro.
Sei que se pode argumentar que essa não é uma questão relevante quando há outras, bem mais urgentes. Entrentanto, esse pode ser apenas mais um sintoma de um déficit de reconhecimento recíproco e igual entre todos os que se encontram em cidades como as brasileiras. Negamos-nos a compartilhar a rua com um tipo de gente que não consideramos gente, e não nos preocupamos com esse espaço, por simplesmente nos abstermos de freqüentá-lo. Não sei se devemos esperar por um desenvolvimento econômico que, sempre acreditamos, virá para criar os espaços públicos comuns de igualdade em que todos sejam um pouco mais felizes, em conjunto. Talvez esses próprios espaços sejam mesmo aquele nó que falta desatar, inclusive, no caminho do desenvolvimento econômico.